11º Congresso da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar

11º Congresso da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar

ExpoGramado – Centro de Feiras e Eventos - Gramado /RS | 30 de agosto a 02 de setembro de 2017

Dados do Trabalho


Título

O Luto e o Imaginário no Transplante Cardíaco

Resumo

O transplante cardíaco é um tratamento complexo que pode acarretar manifestações da ordem biológica, psicológica, social e espiritual, no pré-transplante e pós-transplante. Carregado pelo simbolismo social que o coração possui, como órgão responsável pela vida e sentimentos, o paciente pode vivenciar experiências de luto e de imaginário sobre esse órgão perdido, o novo coração e o doador que morreu. Diante dessa realidade, o presente estudo objetivou compreender as experiências de luto e do imaginário dos pacientes que realizaram transplante cardíaco. Especificamente, buscou compreender a vivência do luto do paciente pelo coração perdido; compreender a experiência do luto do paciente pelo doador; e entender o processo de aceitação do novo coração e seus significados/ simbolismos. Por meio de uma pesquisa exploratória e descritiva, de abordagem qualitativa, contou-se com a participação de 9 indivíduos, que realizaram o procedimento há pelo menos 7 meses. Foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturado, cujos dados foram compreendidos por meio da análise de conteúdo de Bardin. Os resultados foram organizados em seis categorias, denominadas “Percepção sobre o significado do coração”, “Atitudes frente ao novo órgão”, “Noções e sentimentos acerca do doador e sua família” “Inquietações no momento anterior ao transplante”, “Consequências advindas do transplante” e “Perspectivas futuras”. Por meio destas, foi possível compreender, que o coração, para além do entendimento de ser um músculo, representa a vida desses transplantados, configurando-se em um novo sentido dado a esse órgão. Por isso os transplantados acreditam que deve haver um constante esforço de cuidado com esse novo órgão, não só pela preservação da sua saúde, mas em respeito ao doador. A maioria dos participantes não obteve contato com a família do seu doador, mas possui algumas informações referentes a ele, razão pela qual produzem diversas formas de pensamentos e sentimentos associados a essa pessoa, sendo a gratidão o principal deles. Alguns consideram que apesar de saberem que o órgão que controla nossas emoções e sentimentos é o cérebro, em seu particular acreditam ou se questionam se realmente o coração de outra pessoa não possui nenhuma influência na sua forma de viver. No momento anterior à cirurgia, os entrevistados apresentaram como a principal preocupação o fato de terem que se afastar do trabalho, o receio com o cuidado da família, bem como a ansiedade por lhe tirar um órgão que tanto lhe incomoda. Após o transplante, as principais consequências apontadas foram a constante luta para não faltar os medicamentos necessários, a adaptação à nova rotina e a adequação a novas atividades de trabalho desempenhadas. Por fim, os transplantados acreditam que apesar do novo órgão obter um tempo limitado de preservação, isso faz com que eles aprendam uma nova maneira de viver suas experiências. Conclui-se que diante da vivência do transplante cardíaco, não há um maior sofrimento pelo coração retirado, mas há uma frequente preocupação em conservar o novo órgão diante da representação que lhe é conferida. Ademais, a Psicologia hospitalar se faz necessária antes e após o transplante.

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Área

1. Cuidados em Saúde nos Ciclos da Vida - 1.3 Morte e Processo de Luto

Autores

Marina Braga Teófilo, Cynthia Freitas Melo, Georgia Maria Melo Feijão